24.2.08

Aalto's 'The Human Side'

Não tenho por hábito publicar ‘coisas que gosto’, nem sou aficionado à ribalta da blogosfera, ou ao trabalho de grupo veiculado pelo fluxo de terabytes. Sou mais dado aos ‘bitytes’, de tampo de mesa, do rabisco no guardanapo, dos apontamentos incompreensíveis no caderno. Daí que não tenha encontrado (ainda) grande hospitalidade nestes meandros da comunicação. Porém, está claro que tenho que mudar isso. Enquanto vou construindo-me pouco a pouco, e a propósito da ideia de lançar uma pequena publicação, apresento aqui menos de meia dúzia de páginas do livro “Alvar Aalto, de palabra y por escrito”, da colecção de textos de arquitectos da editorial El Croquis, que me dei ao trabalho de traduzir para o português numa aborrecida noite de Sábado, apenas para o vosso deleite pessoal e, quem sabe, despertar ideias e remexer imaginações (quem sabe, até a minha própria...), como quem agita oliveiras para ver as azeitonas cair:

THE HUMAN SIDE COMO ALTERNATIVA POLÍTICA PARA OCIDENTE

The human side lännnen poliittisena vaihtoehtona.

Anotações sobre os planos de Aalto para editar uma revista progressista em 1939. Arquivos Aalto.

A posição politica de Aalto no dividido campo de forças entre o comunismo soviético e as ditaduras italo-alemãs de direita, perfilou-se com nitidez durante a segunda metade dos anos trinta graças aos seus contactos, cada vez mais intensos, com os representantes do Partido Socialdemocrata Sueco, assim como com os correspondentes círculos intelectuais de Inglaterra; contactos que aliás se completaram em 1939, com experiências semelhantes nos E.U.A.. Destas relações nasceu em Aalto uma consciente tomada de posição politica, uma ideologia onde a linha divisória não decorria entre a alternativa marxista-capitalista, senão entre as ditaduras destrutivas e o liberalismo solidário no social. Este humanismo anti-burguês , que aspirava uma sociedade sem classes, apresentou-se-lhe a Aalto nos círculos progressistas dos países nórdicos e do mundo angloparlante.

No verão d 1939 chegou a Finlândia um velho companheiro de Aalto dos tempos da Exposição de Estocolmo, Gregor Paulsson, para trabalhar como consultor numa grande exposição de vivendas internórdica que se ia realizar em Helsínquia. Nesta ocasião, aos dois amigos ocorreu-lhes a ideia de publicar uma revista politica, intitulada The Human Side, com o fim de apoiar um liberalismo nórdico com vincada orientação esquerdista, que ambos consideravam a salvação ideológica da civilização ocidental. Graças à sua amizade com os membros da Bauhaus – exilados em Inglaterra e nos E.U.A. – e com Morton Shand e Francis Hackett em Inglaterra, e às suas novas relações com o círculo formado em redor do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (M.O.M.A.), Aalto converteu-se no sócio editorial principal do projecto, um papel que se fortaleceu mais à frente, quando a defesa da Finlândia contra a brutal agressão russa se converteu em tema central da imprensa mundial. Que a revista nunca se publicasse, senão que, como tantos outros projectos de Aalto, se ficasse por uma bela utopia, não impede que a planificação marcada por Aalto seja um dos seus textos mais interessantes.

O primeiro rascunho de The Human Side – ou O Lado Humano – procede de tempos prévios à Guerra Mundial, e define as suas directrizes da seguinte forma:

Fim e conteúdo: Fazer chegar ao conhecimento do grande público, de forma séria e em linguagem acessível, os novos fenómenos que têm começado a surgir em todo o mundo – explicáveis sociobiologicamente e observáveis na vida social, económica e politica –, e que em conjunto são um sinal de que nos campos mencionados está produzindo-se uma mudança estrutural decisiva. Aparte deste tema, se chamará a atenção sobre a importância de criar um novo sistema de valore que se corresponda com esta nova estrutura e que substitua o niilismo de valores causado pela actual situação caótica. O fim definitivo da revista consiste pois numa síntese entre a cultura, a vida socioeconómica e a politica.

Estudaremos aliás actividades culturais caducadas, tentando extraí-las do resto. Esta tarefa será desenvolvida de forma totalmente independente das ideologias actualmente reinantes.

Formato: Um número semanal de 6-10 páginas, normalmente monográfico. Será compilado por um único autor, ou adoptará a forma dum trabalho de investigação. Sem prescindir duma estrita seriedade, os artigos deverão evitar todo tipo de tecnicismos e ser inteligíveis ao máximo. Os escritos tenderão a causar impacto no leitor, sem cair na agitação propagandística.

Redactores: Pessoas destacadas e independentes representativas do melhor acervo cultural dos países chamados democráticos. Gente que disponha de informação de priemira mão sobre as questões a tratar na revista.

Redacção: Várias alternativas a estudar. Gregor Paulsson e Alvar Aalto fizeram o trabalho prévio.

Difusão: Criar-se-ão centros nos Países Nórdicos, Inglaterra e E.U.A..

Lugar de publicação: Ainda por decidir. Preferencialmente, o centro poderia situar-se na Suécia, ou, de forma conjunta, na Suécia e na Finlândia. Seria desejável dispor de uma versão em finlandês.

A Guerra Mundial, que estala quando Hitler invade Polónia, a 1 de Setembro de 1939, não abalou os planos de edição da revista. Muito pelo contrario, agora é que era verdadeiramente necessária, segundo a opinião dos fundadores. No seu novo manifesto escrevem, entre outras coisas:

Na cultura pela que temos lutado nos países do Norte da Europa, não há nada mais característico que o empenho na criação de um estado de equilíbrio entre os fenómenos individuais e os colectivos, assim como harmonizar a actividade pessoal dos indivíduos e a criação colectiva. Esta visão do mundo está em flagrante contradição com um sistema social no qual não se procure este equilíbrio. Por isso, a edição de The Human Side nestes tempos de guerra se considera mais importante ainda, se tanto, do que em tempos de paz. Justamente agora é extremamente urgente deixar ouvir a voz da Europa do Norte e oferecer ao mundo o que sabemos sobre a concórdia e o pensar construtivo. Fizeram-se já trabalhos preparativos tanto na América do Norte como na Europa. Um monte de autores destacados comprometeram-se a colaborar com a revista, e o projecto se porá em marcha assim que se resolva a questão financeira.

No mês de Outubro elaborou-se um rascunho muito pouco definido sobre o conteúdo da publicação. Gregor Paulsson escreveria sobre ‘A vida digna’, “em forma de prólogo dedicado ao estudo dos valores”, e sobre a ‘Mercadoría’, provavelmente desde o ponto de vista marxista. Os temas de Aalto eram ‘Uma forma de vida concreta e abstracta’, ‘A sociedade ideal’, ‘A diferenciação industrial em contraste com a uniformidade produzida pela estandardização’. Outros artigos prometidos eram ‘A Grande Sociedade’, de Lewis Mumford; ‘O meio ambiente da vida produtiva’, de Walter Gropius; ‘O problema do tempo livre: uma discussão de valores’, de Morton Shand; ‘A psique como um todo, uma psicosíntese’, de Alexis Carrel; ‘A popularidade oculta da arte’, de James Sweeney; e ‘O poder do pensamento, o poder da violência’, de Francis Hackett, um escultor angloamericano que então residia na Dinamarca e ao qual se pretendia nomear redactor-chefe da edição inglesa de The Human Side. Moholy-Nagy comprometeu-se a escrever sobre ‘A herança da Bauhaus’; Frank Lloyd Wright, por sua parte, queria desenvolver a tese de que ‘a melhor forma de construir uma sociedade é elevar potencialmente o indivíduo, e não reduzi-lo ao mínimo denominador comum’. De entre os colaboradores nórdicos se pode mencionar, entre outros, Theo Svedberg, quem tinha prometido escrever acerca do tema ‘O ser humano e a vida biológica’; Gunnar Myrdal, quem escreveria sobre ‘A raça cultural e a raça de sangue’; Elin Wagner, quem intitulou o seu artigo ‘Modos de Vida’; a Alf Ahlberg, quem escreveu sobre ‘O que é o correcto’; Gotthard Johansson, quem escolheu o tema ‘Sobre a vivenda’; Torgny Segerstedt, quem se dedicaria a escrever sobre ‘Um grupo ou uma horda’; e A.I. Virtanen, quem tratou a matéria ‘Fisiologia de alimentos como ajuda na modificação do meio geográfico’.

O programa mencionado tem a data de 4 de Novembro de 1939. Ainda não tinha sido publicado o primeiro número da revista quando o ataque à Finlândia por parte da União Soviética, o dia 30 de Novembro de 1939, atrapalhou os planos dos editores. Uma memória conservada o relata assim:

Ao impor-se o estado de guerra na Finlândia, o carácter de The Human Side foi redefinido, e se adapta o mais possível à batalha aberta na Finlândia, mas, porém, respeitam-se os limites ideológicos conformes ao programa original.

O nº 1 apresentará breves comentários acerca da batalha ideológica que está sendo lavrada hoje em dia no mundo – a cargo de colaboradores americanos, ingleses e nórdicos – e com especial atenção ao antagonismo que se da entre os sistemas sociais da Finlândia e da União Soviética. Nesta edição publicar-se-á também uma série de imagens, na sua maior parte de Finlândia, de homens lutando na frente de batalha. O motivo das imagens é demonstrar, através do ser humano, quão impossível resulta colectivizá-lo e convertê-lo em mera força produtiva. A série completar-se-á com citações literárias que tratem do equilíbrio entre indivíduos e fenómenos gregários. Alem disso, mostraremos algumas falhas organizativas soviéticas. O defeito maior consiste em tratar a horda de modo diletante e em aterrorizar irracionalmente as aspirações do indivíduo. Os temas serão estudados cientificamente e com rigurosa seriedade.

O nº 2 apresentará um artigo de Gunnar Beskow sobre a crise cultural e sua transformação na Finlândia num conflito aberto. Francis Hackett e Theodore Dreiser expressarão a sua opinião sobre o significado social deste conflito.

O nº 3 estruturar-se-á em duas secções. Na primeira, J.J. Sweeney e Lewis Mumford responderão à pergunta “É a colectivização da sociedade a única alternativa ao liberalismo burguês e às formas organizativas e culturais herdadas?” Virá depois um artigo sobre as formas de concórdia e cooperação entre trabalhadores e empresários em Finlândia. Além disso, inseriremos quatro exemplos de colectivizações fracassadas, três na União Soviética e uma num país ocidental.

O nº 4 apresentará as declarações de Fredrick Gutheim e Richard Buckminster Fuller acerca das relações entre operários e empresários. A continuação, dez trabalhadores, juntamente com alguns directivos – entre eles um engenheiro – expressarão a sua opinião sobre a solidariedade mútua no mundo laboral finlandês.

O nº 5 tratará sobre o humanismo técnico e apresentará um artigo de Alvar Aalto sobre o problema da racionalização e as suas perspectivas de desenvolvimento: “Há que utilizar o ser humano como indivíduo ou como grupo?” Nesta edição, Morton Shand escreverá sobre o tema ‘A ideologia da contenda mundial desde o ponto de vista técnico e de organização produtiva’.

O nº 6 dedicar-se-á exclusivamente a apresentar artigos de Gregor Paulsson; com temas como o homem e o meio ambiente, a vida urbana de amanhã e as soluções já obtidas nos Países Nórdicos. De resto, apresentar-se-ão algumas experiências de organização procedentes da União Soviética, o provincianismo na actividade produtora soviética, a propaganda como ponto de partida nos assentamentos da população e das comunidades na União Soviética, o qual deriva em formalismos grandiloquentes e inumanos, e indiferença para com as bases biológicas da vida.

O nº 7 apresentará vinte linhas de Sibelius e artigos nos quais Francis Hackett, Lewis Mumford e Morton Shand tratarão o tema ‘Poder de pensamento e Poder de uso’.

O nº 8 será uma edição dedicada à mulher, onde Elin Wägner escreverá sobre a posição da mulher e sobre as fracassadas tentativas de adaptar a sua actividade ao poder decisório da maquinaria social, ilustrados com exemplos soviéticos de uma mal-entendida emancipação da mulher. Bernard Shaw aduzirá ‘À mulher sábia, novos ensinamentos sobre o socialismo e o capitalismo’. A edição fechará com o artigo ‘A Família: inquérito entre empregadas’ (!!!).

Por último, o seguinte comentário de Alvar Aalto sobre a tomada de posição que adoptou The Human Side:

A guerra em Finlândia não é uma luta entre um poder socialista e outro capitalista, senão uma guerra na qual o agressor representa o imperialismo que no fundo traiu o socialismo e o cobriu de imundície, evidenciando ao mesmo tempo uma total carência de capacidade organizativa. Pelo contrário, quem se defende é um país pequeno, mas forte e bem organizado apesar do seu tamanho. Um estado com uma ordem social mais democrática e uma população composta na sua maioria por pequenos camponeses. Na construção da indústria e dos mecanismos de produção deste país aplicaram-se em grande medida princípios socialistas em conjunção com princípios capitalistas, o que tem trazido como consequência uma forma de pensar socialista que sustêm tudo, e que é comummente aceite. Trata-se pois de uma luta entre um mau sistema, enquadrado por trás da ‘ideologia socialista’, e uma mentalidade social profundamente arraigada na população.

1 comment:

Castro said...

Não somos os únicos,,

Cada vez mais fico convencido de que o boletim é uma boa hipótese para começar.